Ciclovias e linhas de trem em Curitiba

Quem tem a caneta na mão pode tudo.
Hoje em dia é mais fácil encontrar parceiros para o aplauso comportado do que para o debate entusiasmado.
Mesmo para debates mais brandos, entre pessoas de boa educação, que demonstram e argumentam
suas ideias com o conteúdo das suas palavras e não com a altura com a qual as pronunciam, os espaços não estão abertos.
A turma do concordismo, ou do aliancismo – “os progressistas” – logo lhe colocam a “pecha” de que argumentos
contrários ou a própria dúvida são sinais de “oposição política” declarada.
E esta ideia de oposição política aos poderes constituídos tem operado como escudo para os integralistas.
Que pena, quanta pobreza de espírito e de argumentos.

Li a matéria indicada para leitura pelo Paulo Ferraz.
Veja que o principal argumento para a criação do desvio pelo IPPUC/DENIT é a oportunidade de fazer uso da ferrovia
como bota fora de rejeitos das indústrias da CIC. Também, de forma secundária, para o escoamento de resíduos hospitalares.
Parece piada. Haverá tempo em que municípios “rurais” não aceitarão o recolhimento de resíduos produzidos por outros.
Assim como há o pagamento de “royalties” para o município preservacionista de águas usadas por outros,
como fonte de abastecimento; ou mesmo por perdas de terras para áreas de inundação de barragens; haverá no futuro município que irá ganhar para recepcionar com tecnologia paga pelo município produtor de rejeitos.
Mas esta é uma outra história, para outro debate.

O fato é que ainda não estou convencido da importância em afastar a ferrovia da área urbana.
Como se ela fosse um câncer a ser extirpado do nosso convívio.
Quando falei em modernidade em outro comentário realizado e publicado em seu “blog”, esqueci de importantes pontos.
Esqueci de citar como componente dessa transformação a duplicação da própria ferrovia e mesmo a sua automação.
Ela poderia ser eletrificada e monitorada com técnicas e sistemas modernos de controle.

Queria neste momento fazer uma reflexão.
Onde está localizada a estação ferroviária da cidade do Porto, em Portugal?
Onde está situada a estação ferroviária de Amsterdam, nos Países Baixos?
Onde está situada a estação ferroviária de Milão, na Itália?
E onde estão 9 das 10 maiores estações ferroviárias das cidades europeias e mesmo dos EUA e do Japão?
É claro, no seu centro urbano. E isto não constitui fator de atraso dessas comunidades.
Muito pelo contrário, exigem permanentemente do sistema ferroviário eficiência, controle e modernidade.

Mas você poderia dizer, mas estas são estações de trens de passageiros.
É verdade, mas suas presenças somente foram possíveis porque houve manutenção da linha férrea e não a sua remoção.
Modernidade é trazer de volta às nossas vidas o trem e suas amplas possibilidades como meio de transporte.
E não erradicar ramais e linhas para devolver aos automóveis e a tão propalada “acessibilidade motorizada” e à “fluidez”
espaços conquistados com o atraso da substituição sem reflexão ou análise de alternativas de correção de rumos.

E afirmo: este pessoal do IPPUC tem de parar de pensar em ciclovias como se elas fossem a redenção da mobilidade por bicicletas. Querem implantar ciclovias para que? Para posar de modernos com um traçado bonito em área maquiada?
Ora, precisamos de ciclovias sim. Mas precisamos delas aqui, junto às canaletas do sistema expresso.
Mas isto os técnicos do IPPUC não nos querem dar. Sabem por que?
Porque para fazer isto, com relativo baixo custo, teriam de cortar toda uma lateral de estacionamentos junto a elas.
E isto poderia gerar novo enfrentamento com os comerciantes.
Como se ciclistas não tivessem direito à cidade, não fizessem compras no comércio e não fossem participantes da vida em sociedade.

O mais triste é ver a pronta adesão de dirigentes de entidades da Engenharia e da Arquitetura.
Será que não deveriam estes dirigentes convocar seus pares para debater a questão?

Mas deixa pra lá.
Vamos engolindo o prato que vem à mesa, seja o cardápio qualquer.
Temos de continuar vivos, não é mesmo?
Pena que “caviar” e saladas coloridas não encham a barriga dos necessitados.

Grande Abraço.
Saudações @bicis.com
Miranda
antonmir@gmail.com

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